Para responder a pergunta do título deste artigo, proponho a seguinte reflexão: se voltássemos no tempo, mas você soubesse que a internet não é um experimento tecnológico, mas sim um meio de mudança social, econômica e cultural presente no dia a dia de bilhões de pessoas, você gostaria de ter a oportunidade de investir nas empresas que transformaram a sociedade? Se a resposta for sim, continue lendo este texto porque outra oportunidade como aquela, de vinte anos atrás, está prestes a ocorrer.
A internet passou por inúmeras evoluções desde sua forma estática da década de 90 até chegar à forma atual, na qual bilhões de pessoas e máquinas ficam constantemente conectadas. Esta evolução ininterrupta nos leva a próxima fronteira que será quebrada e de uma nova indústria bilionária que vem sendo gestada, com ideias inovadoras brotando em cada esquina. Estou falando da indústria de criptoativos.
As criptomoedas são investimentos viáveis hoje, mas ainda estão apenas no início do seu estágio de evolução tanto como forma de investimento quanto pelo uso real por parte dos cidadãos, empresas e governos. Dessa forma, nem o argumento de que é “muito tarde para investir” e nem a resposta de que é “muito cedo para investir” fazem sentido.
Criptomoedas estão no estágio inicial de investimento, mas não em um estágio incipiente. Estamos em um momento em que é necessário enfatizar sobre a educação do investidor e do empreendedor. Essa visão vem dos dados que revelam que a taxa global de adoção de criptomoedas vem acelerando rapidamente nos últimos anos, depois de um início de baixa adesão. No Brasil, por exemplo, se estima que mais de 17,8 milhões de pessoas ou 8,3% já interagiram com criptoativos, o que nos coloca como o sexto maior mercado do planeta.
A partir daqui, discutirei como outras tecnologias inclusivas e que se espalharam pelo globo foram adotadas e as razões pelas quais acredito que os criptoativos estão perto do ponto de inflexão de adoção, semelhante ao processo que a internet passou no final do século passado.
A adoção precoce da tecnologia
Até o momento em que os consumidores adotem completamente uma nova tecnologia, geralmente anos se passam. O Gráfico 1 (abaixo) mostra o caminho de adoção de novas tecnologias (novas na época, ressalte-se) por famílias norte-americanas. As linhas crescentes apontam como uma quantidade cada vez maior de lares dos EUA passaram a usar a nova tecnologia. No geral, toda a adoção começou lentamente até o momento em que atingiu um ponto de inflexão para, em seguida, acelerar de forma abrupta. No passado, décadas se passavam entre as invenções e a taxa de adoção passar a crescer de forma vertiginosa. Mas isso vem mudando ao longo do tempo. Um exemplo é a internet. Embora exista desde 1969 (como Arpanet), foi apenas em 1987 que teve seu uso comercial aprovado. Mesmo assim, em 1995, somente 14% dos norte-americanos e menos de 1% do mundo a usavam.

GRÁFICO 1: Curva de adoção de novas tecnologias
Esse dado é relevante porque isso se assemelha ao que vemos atualmente com as criptomoedas. Seguindo os dados dos EUA, apenas 13% dos norte-americanos tinham comprado ou negociado criptoativos ao longo de 2022, segundo uma pesquisa feita pela Universidade de Chicago. No Brasil, como destacado acima, esse percentual é de 8,3%. Enquanto isso, no mundo todo apenas cerca de 5,2% das pessoas usaram criptoativos.
Isso ocorre porque nos primeiros anos de adoção de uma nova tecnologia, as experiências dos usuários com a tecnologia costumam ser desajeitadas e muitas vezes frustrantes. Isso ocorre à medida em que o ecossistema e a infraestrutura amadurecem lentamente. No caso da internet, muitos leitores podem se lembrar dos dias anteriores ao surgimento do primeiro navegador da web, em 1993, quando o acesso à internet exigia digitação em um prompt em uma tela verde. Esse exemplo serve para que possamos pensar sobre como a experiência do usuário foi simplificada e tornada mais atrativa ao longo dos anos.
Outro elemento em comum nossos primeiros anos de adoção de novas tecnologias é que a relação entre os primeiros usos de caso real e a adoção por parte dos consumidores não costuma ser imediata. Com todas as tecnologias, como eletricidade, telefonia, televisão e internet, os consumidores precisaram de tempo para descobrir o que era a tecnologia e como ela poderia beneficiá-los. Isso também vem ocorrendo com o ambiente de criptoativos. Ao longo de 2021 e 2022, foi perceptível para muitos investidores que os criptoativos ainda estão em um estágio inicial de adoção. Esta percepção decorre do fato de que muitos ainda não conseguem enxergar casos claros de uso real e outros ainda veem a tecnologia como muito difícil de ser executada.
Nossa visão: a adoção de criptoativos hoje se assemelha ao que ocorreu com a internet dos anos 1990
Embora a tecnologia por trás dos criptoativos seja complexa e os casos de uso real ainda possam ser difíceis de visualizar, os dados mostram que o mundo está começando a adotar a tecnologia. E isso está acontecendo rapidamente. De acordo com pesquisa da Triple A, o número de usuários globais de criptoativos atingiu 420 milhões em janeiro de 2023, ou seja, pouco mais de 5,2% da população mundial. Mas o mais impressionante, é que em 2020 eram apenas 100 milhões de usuários. Ou seja, em dois anos, o número de pessoas utilizando criptoativos quadruplicou.
As taxas de adoção de criptoativos parecem estar seguindo o caminho de outras tecnologias avançadas, particularmente com aquela que vimos da internet. Se essa tendência continuar, os criptoativos devem em breve sair da fase de adoção inicial (que vivemos atualmente) e entrar em um ponto de hiperadoção, semelhante àquele visto em outras tecnologias, como mostrou o Gráfico 1. Neste gráfico, também é possível observar que há um ponto em que as taxas de adoção começam a subir de forma ininterrupta. Para a internet, esse ponto foi no fim do século passado. Após um início lento no início da década de 1990, o uso da internet saltou de 77 milhões em 1996 para 412 milhões em 2000. Dez anos depois, o uso mundial da internet já havia alcançado mais de 1,98 bilhão de pessoas. Atualmente, está em mais de 5 bilhões.
Outro ponto relevante a se levar em consideração é que a adoção da internet, uma vez que atingiu seu ponto de hiperadoção no fim do século passado, cresceu em um ritmo mais acelerado do que qualquer das outras tecnologias avançadas vistas no Gráfico 1, como a eletricidade, telefonia, rádio ou TV a cores. Essa tendência vem sendo observada em outras invenções digitais desenvolvidas mais recentemente, como o uso dos smartphones e da internet Wi-Fi, como também pode ser constatado no Gráfico 1. A razão para isto é que cada nova invenção digital acompanha uma infraestrutura digital que já estava construída e que, no máximo, ganhou aprimoramentos. Por isso, acredito que os criptoativos eventualmente irão seguir um caminho de adoção acelerada semelhante ao que vimos nessas últimas invenções digitais.
Outro ponto relevante é que os criptoativos passaram a seguir o mesmo padrão de adoção do que a internet. Como se pode ver no Gráfico 2, o crescimento dos usuários criptos de 2014 até 2022 se espelha quase que exatamente na mesma taxa de adoção que a internet teve entre 1990 e 1998. Este gráfico compara o crescimento global de usuários entre a internet, a partir de 1993 (linha verde), e usuários de criptomoedas, a partir de 2014 (linha azul). Com base apenas nessa comparação, parece que o uso de criptomoedas hoje pode estar um pouco à frente da Internet de meados para o final da década de 1990. Números precisos à parte, não há dúvida de que a adoção global de criptomoedas está aumentando e em breve poderá atingir um ponto de hiperinflexão.
GRÁFICO 2: Adoção da internet vs. adoção de criptoativos

Poucos projetos serão vencedores
Agora que estabelecemos um parâmetro entre os criptoativos e outras tecnologias, como a internet, fica a pergunta, como descobrir quais são os ativos com maior capacidade de sobreviver ao longo prazo? Ao observar a história do desenvolvimento das soluções da internet, percebe-se que o investimento em estágio inicial foi repleto de ciclos violentos de crescimento e queda, como muitas empresas pontocom e investidores podem atestar há 20 anos. E o mercado de criptomoedas segue a mesma lógica.
Atualmente, existem mais de 17 mil criptomoedas e, se a história servir de guia, muitas falharão (ou pelo menos não irão escalar como almejam). Criptomoedas vivem de ciclos ou ondas, assim como qualquer outro setor do mercado. Até o momento, foram três: 2013, 2017 e 2022. No momento, estamos vivendo o último ciclo de baixa do mercado, mas como comparativo vale apontar que o abalo sísmico nos protocolos de 2017 fez com que cerca de 40% dos criptoativos desaparecessem (na época, eram cerca de 1,7 mil projetos). A volatilidade impera e, para nós, é um fato de que ocorrerão novos ciclos de altas estrondosas e de quedas repentinas. É por isso que saber identificar as tecnologias e narrativas vencedoras é importante.
Mas saber escolher os melhores projetos, com a tecnologia vencedora ao longo prazo não é um passeio no parque. Os investidores devem avaliar rotineiramente os atuais vencedores e os perdedores e considerá-los em relação ao conjunto cada vez maior de empresas que ainda irão ser criadas. Usarei novamente o final da década de 90 como exemplo. Os sites mais visitados da segunda metade da década de 90, independentemente do ramo de negócios, não se mantiveram relevantes muito além do ano 2000. Alguém quer adivinhar o site mais acessado em 1996? Era o site de email American OnLine (AOL), que anos depois se tornou irrelevante e fechou.
Por isso, neste momento, mais importante quede saber quais serão as empresas que irão oferecer as melhores soluções práticasaplicações nas próximas décadas, é o mais importante seja compreender quais serão as tecnologias que permitirão que a adoção tecnológica dos criptoativos seja possível e quem serão os protocolos responsáveis por criá-las e massificá-las.
Por João Kamradt – Partner & Head of Research | viden.vc